April 30, 2021

Padrões de Sobrevivência

By YvY

Nosso estado natural é simplesmente nossa presença ou estar presente. Neste estado, estamos relaxados e contentes. Quando muita energia atinge nosso corpo e sistema nervoso, ficamos sobrecarregados. Se nos acalmarmos, descarregaremos a energia, relaxaremos e retornaremos ao momento presente. Caso, quando criança, não fomos acalmados, mas, em vez disso, deixados sozinhos para lidar com uma descarga esmagadora de emoções/energia, começamos a construir uma defesa, uma armadura. A defesa ou amortecedor nos impede de experimentar diretamente essa pressão. Quando crianças, experimentamos várias estratégias de defesa e adotamos aquelas que melhor nos ajudam a resolver os problemas que enfrentamos. Se usarmos uma estratégia de defesa específica com frequência, ela torna-se um hábito e logo um Padrão de Sobrevivência. Todos os Padrões de Sobrevivência surgem da sensação de insegurança logo, toda ação são tentativas de estabelecer uma sensação de segurança para nós mesmos. Construímos nossas estratégias de sobrevivência a partir de talentos e habilidades que temos. Todos esses Padrões de Sobrevivência são baseados em habilidades, o uso bem-sucedido de qualquer Padrão depende das habilidades necessárias para fazê-lo funcionar.

Estar em um Padrão de Sobrevivência afeta nossas percepções sensoriais, nossa experiência, logo, o significado que atribuímos a esta experiência validam e reforçam este Padrão de Sobrevivência. Por causa disso, nossas experiências, crenças, identidades e Padrões de Sobrevivência tornam-se um sistema de auto reforço. Permanecemos em um Padrão de Sobrevivência praticamente o tempo todo, com ele rodando como um filme silencioso em segundo plano ou ruidosamente em primeiro plano. Isso constitui muito de nossa personalidade. Nosso falso eu e nossos Padrões de Sobrevivência inconscientemente definem muitas de nossas escolhas em relação a interesses, amigos, amores, carreira, etc. Aqui, aprendemos a reconhecer quando estamos em um Padrão de Sobrevivência e adquirimos habilidades necessárias para mudarmos esse Padrão e voltarmos a estar presentes. Quanto mais presentes, menos achamos o Padrão útil e atraente. Nossa identidade começa a mudar do Padrão para a Presença. Como adultos, fazemos práticas espirituais para nos reconectarmos com a Presença, com nosso verdadeiro eu, mas enquanto não compreendermos os traumas em nosso corpo que alimentam nossos Padrões de Sobrevivência, atuaremos dentro Padrões quando sob pressão, desconfortáveis ou oprimidos.

Uma experiência de cura (=entendimento) que dissolve o trauma central de onde o Padrão de Sobrevivência originou-se serve para romper esta corrente. Uma vez quebrado, um Padrão perde sua força emocional convincente e deixa de existir. Todos os dias, a cada momento, olhamos para o mundo e acreditamos que o que vemos é o mundo como um todo, inteiro, único, talvez um mundo como todos o veem. Mas estamos enganados. O mundo que vemos é uma versão filtrada e distorcida do mundo real. Algumas partes da imagem foram deslocadas para o primeiro plano, em foco, iluminadas com cores vivas, enquanto outras partes da imagem foram movidas para o plano de fundo, esmaecidas e opacas e muitas vezes nem as notamos. Não estamos cientes dessas distorções, então pensamos que as imagens que vemos são uma imagem precisa do mundo. Pense desta forma: imagine que você vive toda a sua vida em um quarto pequeno. As paredes, piso e teto deste ambiente são feitos de telas de TV, telas tão grandes que ocupam toda a parede, teto e piso. Para onde quer que você olhe, há apenas telas. Tudo o que você sabe sobre o mundo – tudo o que você vê, ouve, sente, toca, cheira, prova ou percebe de alguma forma – passa pelas telas. Até como você se percebe vem através das telas. Agora pergunte a si mesmo: “Em qual canal minhas telas de TV geralmente estão sintonizadas?” Você está assistindo o canal do medo, o canal que destaca todos os perigos que o cercam? Você está assistindo o canal do amor, o canal dedicado a sentir-se conectado com os outros e agradá-los? Você passa a maior parte do tempo assistindo o canal do vencedor, o canal que mostra quem está no topo e quem está na pior e como lutar para chegar ao topo? Você está assistindo o canal de como evitar perdas, o canal focado em como diminuir-se e esconder-se evitando assim ser atropelado pelos que lutam? Ou você está assistindo o canal das regras, aquele que se concentra em manter as coisas ordenadas, corretas e controladas, em fazer da maneira certa e garantir que os outros também façam da maneira certa (normalmente a sua maneira)?

Obviamente, o canal que você assiste fará uma enorme diferença em como você percebe o mundo e como você se percebe. E se você assistir ao mesmo canal todos os dias de sua vida, você não terá como saber que isso tudo é apenas uma fatia do mundo, apenas uma pequena fração da imagem toda. Você nem vai saber que existe uma imagem completa, um mundo maior e mais amplo que você nunca experimentou. Note por exemplo que quando algumas pessoas se referem a coisas que você não experimentou, ou se concentram em coisas que não fazem sentido ou simplesmente não parecem importantes para você, talvez pense ou fale ‘como são estúpidos’ ou ‘eu sou estúpido’ ou ‘eles estão errados’ ou ‘eu estou errado’ ou ‘eles são maldosos’ ou ‘eu não sou bom o suficiente’ ou ainda ‘quepessoa sem noção.’ Mas, independentemente do que diga a si mesmo, suas histórias não desafiarão sua crença de que sua visão do mundo é precisa. Assim, passamos a vida vendo uma imagem filtrada e distorcida do mundo e tomando todas as decisões com base em informações incompletas e distorcidas. Então, nos perguntamos por que a vida é tão difícil e por que muitas vezes é tão difícil fazer os outros concordarem conosco e cooperarem conosco. Alguns de nós encontram segurança ficando sozinhos. Alguns de nós buscam segurança através dos outros, seja agradando-os ou dominando-os. Tentamos persuadir os outros a ser como nós. Mas seja qual for a estratégia que utilizamos, todos buscamos segurança.

O primeiro passo para mudar, é aprender a mudar o canal de TV que você vê na sua cabeça. Para mudar o canal, você tem que mudar seu foco de atenção assim vai entender melhor qual estação está sintonizado. Você pode mudar a maneira que vê o mundo. Mas talvez descubra que o canal está sempre voltando a sintonizar no Padrão antigo. Repetidamente, você muda para algo de que gosta mais, apenas para descobrir que acaba sempre retornando ao canal antigo (a zona de conforto). Então você começa a investigar: o que é que faz com que mude por um certo tempo e depois volte? Gradualmente, percebe que sempre que fica angustiado, oprimido, entediado ou sob pressão você volta ao seu antigo Padrão de Sobrevivência habitual e sintoniza a mesma velha estação. Quase todos nós notamos a diferença entre estar Presente e estar no Padrão, embora geralmente chamemos os dois estados por outros nomes. Estar Presente significa que toda a nossa atenção está aqui, neste tempo e lugar. Normalmente, isso acontece apenas quando nos sentimos relativamente seguros. Nessas ocasiões, nossos corpos não estão em estado de alerta, condicionados por traumas do passado, e nossas percepções não são filtradas ou distorcidas por pensamentos e sentimentos/emoções do passado. Isso nos permite perceber a situação real acontecendo aqui e agora e responder a ela de forma saudável e eficaz. Estar no Padrão significa que nossas percepções são filtradas e distorcidas por um Padrão de Sobrevivência. Um Padrão de Sobrevivência é uma reação automática baseada no corpo e a tentativa de nos proteger para não nos sentirmos oprimidos, sob pressão ou desconfortáveis. Mas é uma reação que foi condicionada em nós por traumas do passado. Não é uma resposta à situação atual. Em algum momento no passado, esta foi a melhor estratégia que encontramos para lidar com uma situação difícil e contínua. Com o tempo, isso foi tão profundamente condicionado em nossos corpos que agora entramos automaticamente em ação sempre que nos sentimos ameaçados, fazendo-nos reagir como se o passado estivesse acontecendo agora, mesmo quando não está, geralmente sentimos que nossa reação é completamente justificada. Isso acontece porque nossa mente e corpo são inundados com sentimentos e percepções de situações passadas. É como se o velho filme estivesse rodando e abafando nossa percepção da situação presente. Em algum nível, acreditamos que o antigo trauma está se repetindo. Muitas vezes, isso faz com que a ameaça atual pareça muito maior do que realmente é, fazendo com que tenhamos uma reação exagerada da atual situação. A reação exagerada é um dos principais indicadores de que estamos atuando no Padrão.

No entanto, atuar no Padrão ou reagir não é a única resposta possível a uma ‘ameaça.’ É possível estar Presente enquanto se lida com um perigo real aqui e agora. A diferença é que, quando você está Presente, está vendo e ouvindo a situação real ao seu redor e respondendo aos detalhes da situação atual real, não a algo do seu passado. Você está compondo uma resposta nova e flexível com base nesta situação específica. Como sua resposta é adaptada à situação atual, ela funciona melhor do que uma reação automática fixa. E, como você está Presente no momento, pode monitorar sua resposta perceber se está funcionando e ajustá- la conforme necessário. Sua resposta é calibrada para esta situação; não é uma reação exagerada baseada em situações passadas. Para muitos de nós, no entanto, permanecer no Presente quando nos sentimos ‘atacados’ é quase impossível. Nossos corpos estão tão profundamente condicionados pelos traumas ainda presos a eles que entramos em um Padrão no instante em que nos sentimos desconfortáveis. Na verdade, muitos de nós atuamos dentro do Padrão quase o tempo todo. Nossos Padrões de Sobrevivência inconscientes tornaram-se tão fortes que governam nossas vidas, anuviando todos os nossos pensamentos e sentimentos e determinando nossas ações. Quando questionados sobre por que nos comportamos dessa forma, a resposta costuma ser: ‘eu sou assim mesmo’.

Conforme você aprende sobre os Padrões de Sobrevivência, a coisa mais importante a lembrar é de que este Padrão de Sobrevivência não é quem você realmente é. É o que bloqueia quem você realmente é. Isso o impede de se sentir ameaçado ou oprimido, mas também o impede de experimentar diretamente a si mesmo no momento e expressar isso ao mundo. Quando criança você estava angustiado, naturalmente usou todas as ‘armas’ que tinha para se proteger. Isso era necessário. Foi o melhor que você pôde fazer na época. Gradualmente, as estratégias de proteção que você usou foram condicionadas em seu corpo e mente. Com o tempo, essas estratégias de proteção desenvolveram sua própria lógica e estrutura interna e tornaram-se seus Padrões de Sobrevivência. Mas eles não são quem você é. Então quem és tu? Você é Presença. E você é aquele que está Presente. Você é a consciência, neste momento, deste momento. Você não é seus pensamentos, emoções ou comportamentos. Nem mesmo seu corpo. Você éapenas uma consciência simples, aberta, luminosa e expansiva. Em muitos ensinamentos espirituais, essa consciência é chamada de Essência ou Espírito. Também é chamada de Verdadeiro Eu, e este termo é usado para distingui-lo da personalidade, ou Falso Eu.

Também é importante lembrar que seus Padrões de Sobrevivência não são algum tipo de falha ou defeito pela qual você deve ser punido. Você os desenvolveu na tentativa de sentir-se seguro em situações difíceis. Uma vez que seus Padrões de Sobrevivência funcionaram isso fez com que você os adotasse, inclusive algumas de suas melhores habilidades você também tem praticado e desenvolvido, como criatividade, amor, força de vontade, mesmo quando perdido dentro de um Padrão. Adotar um determinado Padrão de Sobrevivência é uma maneira de aprimorar um conjunto específico de habilidades – talvez as habilidades que você precisa para realizar coisas importantes em sua vida.

Como bebes recém-nascidos, somos apenas Presença em um corpo. Não estamos pensando ou avaliando nossa experiência. Não estamos lembrando do passado ou imaginando o futuro. Não fechamos ou blindamos nosso corpo. Não há limite, nem interior nem exterior. Nem eu nem o outro. . . apenas o fluxo da experiência. É essa Presença pura que torna os bebes tão adoráveis e atraentes. E lembre-se, esta Presença ainda está em você, enterrada sob todas as camadas de feridas e defesas. Porém, quando bebes, não temos limites, não temos proteção, nenhuma maneira de regular a quantidade de sensações que experimentamos. Qualquer som ou emoção que acontece perto de nós flui através de nós. Se a pessoa que nos segura está sentindo uma emoção forte, seja amor, alegria, medo ou ódio, essa emoção flui direto por nós. Não como um conceito mental, mas como uma sensação corporal, uma onda. Somos um pequeno diapasão, ressonando com cada nota que é tocada nas proximidades. Precisamos de uma maneira de regular o fluxo que experimentamos. Um estímulo, seja de fora por exemplo, (ruído, toque) ou de dentro (fome, dores de gases) cria uma carga de energia em nosso corpo. Nosso sistema nervoso é projetado para passar por um ciclo regular de carga e descarga, excitação e calmaria, tensão e relaxamento. A excitação é boa, mas não muito ou por muito tempo. Depois da excitação, nosso sistema nervoso precisa relaxar e voltar ao estado natural e descansar. Uma vez que, nesta idade, não podemos regular nosso próprio sistema, precisamos de nosso cuidadores (por exemplo, mãe ou pai) para fazer isso por nós. Precisamos deles para nos proteger de muito barulho, muito sol, muito calor ou frio. Quando ficamos carregados, seja de excitação ou dor, precisamos deles para nos acalmar e nos ajudar a descarregar a tensão. A maioria dos pais passam muito tempo acalmando seus filhos balançando, acariciando e cantando canções de ninar.

Essa necessidade de outra pessoa regular a carga de energia em nossos corpos é uma das características que definem a infância. Por outro lado, a capacidade de regular nossos próprios corpos é uma das características que definem a idade adulta. Os adultos são capazes de rastrear suas próprias necessidades e assumir a responsabilidade de dar a si mesmos o que precisam ou negociar maneiras de obter o que precisam de outras pessoas. O ideal é que, conforme cada um de nós chega à idade adulta, adquirimos todas as habilidades de que precisamos para regular nosso próprio processo de carga/descarga. Sentimo-nos suficientemente seguros em nossos corpos para habitá-los totalmente. Aprendemos como nos aterrar e a operar no tempo e no espaço. Aprendemos como absorver energia em nossos corpos e como metabolizá-la. Desenvolvemos uma fronteira energética em torno de nossos corpos que mantém nossa própria energia dentro e outras energias fora. Desenvolvemos uma sensação de núcleo do nosso próprio corpo e aprendemos a reconhecer esse centro como ‘eu’. Isso nos dá um senso corporificado de quem somos. Aprendemos a rastrear as sensações em nosso corpo e a interpretar o que elas dizem sobre nossas emoções e desejos. Isso nos dá uma noção clara de ‘Eu sinto’ e ‘Eu quero’. E aprendemos maneiras saudáveis de fazer com que esses desejos sejam atendidos, o que nos dá a sensação de ‘Eu mereço’ e ‘Eu posso’. Todas essas habilidades nos ajudam a rastrear e regular a quantidade de carga e descarga de energia em nossos corpos para nos sentirmos confortáveis, ao invés de sobrecarregados. No entanto, a maioria de nós teve uma infância longe desse ideal. Nossos sistemas nervosos vulneráveis não foram protegidos e regulados pelos nossos pais ou cuidadores. Muitas vezes nos sentimos oprimidos e sozinhos e, para nos proteger desses sentimentos recorrentes de opressão, desenvolvemos Padrões de Sobrevivência.