April 30, 2021

Defesas Psicológicas do Padrão de Fuga

By YvY

Tal como acontece com todos os Padrões de Sobrevivência, as defesas psicológicas usadas por pessoas com o Padrão de Fuga são todas tentativas de prover segurança para si mesmas em um mundo inseguro. Mas, como o Padrão de Fuga é muito jovem em termos de desenvolvimento, aqueles que atuam neste Padrão de Sobrevivência têm poucas opções de escolha quando precisam proteger-se psicologicamente. Suas principais defesas são a negação, a projeção, a retirada e a fantasia.

Negação

A negação é a mais óbvia de suas defesas psicológicas. Elas negam as necessidades do próprio corpo como alimento, descanso e contato humano. Elas não podem nem mesmo perceber quando seu corpo está cansado, com fome ou em perigo de lesão e correm o risco de se expor a acidentes frequentes. Também negam a necessidade de seu coração, incluindo o fato de que precisaram de amor quando criança e que ainda precisam de amor agora. Elas talvez façam terapia acreditando que tiveram um infância maravilhosa e feliz, e que por alguma razão simplesmente não possuem ou evitam relações humanas quando adultas.

Projeção

Outra defesa psicológica usada é a projeção. Isso significa que, em vez de sentir uma emoção perturbadora dentro de si próprias, elas imaginam que a outra pessoa está sentindo. Emoções assustadoras e perigosas são projetadas nos outros, então pode parecer que a outra pessoa está com raiva ou ódio, quando na verdade quem está é ela. Essas pessoas também são talentosas em percepção psíquica e são capazes de realmente perceber os estados internos dos outros, esta tendência de projetar seus sentimentos pode distorcer suas percepções. Suas projeções se misturam com suas percepções, o que faz com que as projeções pareçam precisas. Porque elas têm o dom da percepção, aprender a diferenciar a percepção da projeção é especialmente importante para elas.

Afastamento dos Outros e do Corpo

Duas outras defesas psicológicas frequentemente usadas por essas pessoas são o afastamento dos outros e o afastamento do seu próprio corpo refugiando-se na mente. A retirada, seja das outras pessoas ou do corpo, é uma forma de proteger-se da angústia que se acumula no corpo. Cada um de nós precisa regular a quantidade de sofrimento ou carga que nosso corpo aguenta, mas como essas pessoas são menos protegidas do que os outros por estruturas fortes como o ego e os limites energéticos , elas precisam de uma forma adicional para se proteger. Uma vez que elas não podem excluir o ruído, elas precisam se afastar dele.

O afastamento dos outros geralmente surge ao evitar o contato físico e apego emocional, muitas vezes justificado como ‘independência.’ O lado sombrio da independência é o medo da dependência. Como bebês e crianças, todos nós dependemos daqueles que cuidam de nós. Se nossos cuidadores estiverem presentes, sintonizados conosco e atendendo com amor às nossas necessidades, aprendemos que é seguro depender dos outros. À medida que crescemos, nos tornamos capazes de cuidar dos outros, e nossa dependência amadurece e torna-se inter-dependência. Nos vemos como parte de um grupo onde cuidamos uns dos outros. No entanto, essas pessoas não tiveram uma experiência de infância tão idílica. Elas descobriram que os outros eram a fonte de sua dor, não o remédio para ela. Assim, quando adultos, elas tendem a evitar ligações emocionais e até mesmo o contato com outras pessoas.

Como você pode imaginar, ingressar em um mosteiro ou fazer retiros longos e silenciosos fornecem uma cobertura perfeita para essa defesa psicológica. Reivindicações espirituais de desapego podem mascarar medos reais de apego pessoal. Quando escolher uma prática de trabalho interior, é sempre importante explorar o que você está evitando, bem como o que você está perseguindo. Conheci pessoas que conseguiam meditar sozinhas por anos em um mosteiro, entrando em estados de êxtase, porém sentiam-se aterrorizadas quando retornaram ao mundo e se apaixonaram por um ser humano real. Permitir que os limites do ego se dissolva é tolerável, mas as necessidades de apego despertadas pelo sexo e amor pessoal eram assustadoras.

A retirada da consciência do corpo para a mente é essencialmente a mesma estratégia, porém usada internamente, em vez de externamente. Porque o corpo e o coração são fonte de dor e sofrimento, a pessoa afasta sua consciência do corpo e a coloca em sua cabeça. Verbalmente, essa retirada do corpo aparecerá como uma tendência a falar em abstrações e generalizações, em vez de falar sobre necessidades e sentimentos pessoais específicos.

A ilusão é “Sou minha mente, não meu corpo.” Na psicologia, esta retirada da consciência do corpo é chamada de dissociação.

Fantasia

A fantasia é mais um afastamento da mente. Nesse caso, toda a realidade física é deixada para trás e um mundo inteiramente novo é criado para substituí-la. Usualmente, aquele novo mundo é muito mais atraente, ele é um lugar onde a pessoa pode criar sua realidade.

Por outro lado, essa facilidade com o pensamento abstrato, aliada à habilidade para coletar ideias de outros campos e até mesmo outras dimensões, também é responsável pelo o fato de que a maioria dos pensadores em todas as disciplinas fazem uso deste Padrão de Sobrevivência. Essas pessoas extraordinárias têm a necessidade e a capacidade de abandonar o mundo pessoal e dedicarem-se a uma visão mais holística de tudo. Elas tendem a ser famosas mundialmente, mas ainda permanecem amplamente desconhecidos para suas próprias famílias. Albert Einstein foi um exemplo disso.

Relacionamento Consigo Mesmo e com o Crítico Interno

Normalmente, as pessoas que manifestam o Padrão de Fuga sentem-se confortáveis em ser um espírito no mundo espiritual, mas temem ser um indivíduo separado em um corpo físico. Para elas, o mundo físico é apenas um dos muitos mundos possíveis, então elas veem pouco valor em um corpo que se machuca tão facilmente. Uma vez que estão acostumadas a se mover no tempo e no espaço à vontade no mundo espiritual, o tempo e o espaço físicos parecem sem importância para elas. Na vida diária aqui, tendem a perder a noção do tempo e espaço lineares, o que faz com que se percam.

Ódio de Si Mesma

O medo que é tão óbvio nesse Padrão de Sobrevivência é acompanhado por um sentimento menos óbvio, o ódio de si mesma. O ódio, na verdade vem de seu crítico interno. Uma vez que o crítico interno de qualquer pessoa é uma versão destilada de todos as atitudes negativas de seus pais em relação a elas, um pai hostil tende a criar em seu filho um crítico interno ainda mais hostil. A voz de um crítico interno pode ser mais do que apenas crítica; pode ser odiosa. Embora qualquer pessoa desenvolva um crítico interno odioso – não importa quais Padrões de Sobrevivência atuem – o alvo do ódio de seu crítico interno é determinado por seus Padrões. Isso leva as pessoas com Padrões de Fuga a odiarem seu corpo físico por sua fraquezas e vulnerabilidades, e se odiar por ter que existir em um corpo físico. Psicologicamente, a hostilidade que elas inicialmente experimentaram como vinda de fora agora foi captada e se voltou contra elas: “Eles me odeiam” transformou-se em “Eu me odeio.”

Auto-Mutilação

O ódio é uma emoção que quer aniquilar aquilo que odeia, para removê-lo de existência, então “eu me odeio” torna-se “eu não deveria existir.” Isso leva aqueles que atuam no Padrão de Fuga a se envolverem em atos prejudiciais. Isso pode variar de uma simples negação, como esquecer de comer ou dormir até auto ferimento, a auto destruição está sempre presente, ao invés de direcionar a raiva externamente para o que atualmente os está machucando, sua raiva é dirigida internamente contra a si próprios por serem incapazes de evitá-la.

Dificuldade de Orientar-se no Mundo Físico

Outra consequência de não reivindicar o corpo físico é que esta criança tem dificuldade em aprender sobre si mesma por meio de suas interações com o mundo físico. Normalmente, quando uma criança está formando seu senso de identidade, ela recebe feedback constante do mundo físico sobre o que é ‘eu’ e o que não é. Uma criança que esbarra em uma mesa de centro recebe feedback sobre o tamanho e a forma de seu corpo e exatamente onde sua borda está localizada. Mas se a consciência desta criança não for em seu corpo no momento da colisão, ela pode nem sentir, e então pode perder aquele pedaço de informação inteiramente.

Sentir o internamente o corpo é uma das formas pelas quais a criança conhece a si mesma e forma um senso de identidade estável. Claro, o sentido do eu em qualquer criança é muito delicado e frágil, como demonstrado pela facilidade com que esta criança desmorona quando chocada ou oprimida. Mesmo um barulho alto é suficiente para fazer com que o bebê comece a chorar. Mas se a criança conseguiu reivindicar o corpo físico, essa fragilidade diminui gradualmente à medida que sua conexão com seu núcleo cresce. Com o tempo, seu senso de identidade se aglutina em torno de seu núcleo, e ela forma um eu coeso e unificado ancorado no corpo físico. Ela torna-se mais resiliente e desaba com menos frequência. Se um choque a fizer cair, ela é capaz de se recompor mais rapidamente em torno de seu próprio núcleo. E se, depois de desmoronar, ela estender a mão para um adulto que a segura e a conforta, ela aprende que a conexão com outros humanos é segura. Aprende que existe um refúgio onde se recompor.

Agora, enquanto luta para se recompor depois que um choque a estilhaçou, ela tem duas formas cruciais de apoio: ela tem um lugar seguro dentro do qual se recolhe e tem um ponto de referência. Ela está a caminho de unificar e integrar a si mesma como um indivíduo separado no mundo físico. Mas uma criança que desenvolve o Padrão de Fuga não teve esses suportes ou não os tinha o suficiente.

Conforme essa experiência de deixar o corpo acontece repetidamente, ela torna-se um hábito. Embora essa atitude resolva o problema no momento, ela impede a entrada espírito para completar sua primeira tarefa de desenvolvimento, de se estabelecer e reivindicar o corpo. Sem reivindicar o corpo, o espírito da criança não pode usar o corpo para se orientar e se proteger no mundo físico. Tudo isso leva à dificuldade de funcionar no mundo físico. A sensação do corpo é diminuída, o que torna mais difícil o desenvolvimento físico, a coordenação e a força. Há menos energia vital e vitalidade em seu corpo, o que torna mais difícil para ela se sentir conectada à vida física em geral, especialmente quando o reino espiritual parece muito mais vívido e interessante.

O Mundo Físico Parece Frio e Hostil

Porque estender a mão para os outros em busca de conforto e calmante não funcionou, pessoas com Padrões de Fuga não têm nenhum modelo de ser humano seguro e nutritivo e nenhuma expectativa de que recorrer aos outros para receber ajuda. Em vez de, elas percebem o mundo como frio e hostil. Aquelas que atuam neste Padrão estão acostumadas a se experienciar como parte de um consciência una maior, mas não terminaram o processo de separação a partir dessa consciência una e vir a se conhecer como um ser pessoal, uma consciência individualizada, ou um ser humano individual no mundo humano. Normalmente, elas não gostam ou valorizam o mundo físico e não têm certeza se querem estar aqui. Mesmo como adultos, muitos que seguem esse padrão ainda não decidiram se querem ficar e viver no mundo físico. Elas não têm estímulo para viver aqui.

À medida que elas se retiram para se proteger, um ciclo de auto reforço se desenvolve. Elas esperam hostilidade dos outros, mesmo que não exista e fogem assim que eles a virem. Deixar o corpo com tanta frequência a enfraquece e a deixar as outras pessoas com raiva porque sentem-se abandonadas quando elas desaparecem. Então seu próprio senso de fraqueza e a raiva dos outros se combinam para reforçar sua crença de que o mundo não é seguro. Em resumo: algo acontece que abala a consciência do espírito que chega. Fugindo disso, o espírito da criança se refugia no mundo espiritual e não reclama o corpo. A tarefa da incorporação não está concluída e o eu permanece frágil e desintegrado. O mundo físico é experimentado como frio e hostil, e o contato humano é sempre visto como potencialmente perigoso. Aqui desenvolve-se o hábito onde  a pessoa foge ao primeiro sinal de conflito ou hostilidade. Mesmo quando adulto, o eu da pessoa se fragmenta facilmente, e essa tendência a fragmentar-se torna-se a marca registrada do Padrão de Fuga.

Do Livro: The 5 Personality Patterns – Your Guide to Understanding Yourself and Others and Developing Emotional Maturity – By Steven Kessler