May 1, 2021

Bhavacakra – Uma Breve Visão da Roda da Vida

By YvY

Antes de mergulhar numa exploração detalhada dos Seis Reinos, vamos fazer um pequeno passeio na Roda toda para nos orientar melhor.

Trechos do Livro: Awekening from the Daydream by David Nichtern.

Impermanência : A Ceifadora e o Mundo em suas mãos.

A Ceifadora encontra-se no topo da Roda e a segura com sua boca e mãos, ela representa a morte e a impermanência. A Ceifadora segurando a Roda significa que de fato, todos os aspectos das nossas vidas são governados pela transitoriedade ou impermanência. Isso parece óbvio, porém menos óbvia é a confusão e ansiedade que experimentamos no dia-a-dia ao resistir as mudanças. Resistência a mudanças gera sofrimento. A sabedoria popular nos fala que a morte de uma pessoa amada, a mudança de casa ou divórcio são os três maiores traumas comumente encarados pelos humanos. Podemos acrescentar aqui detalhes como, envelhecer, adoecer, machucar-se, perder o emprego, conflitos, guerras, colapso econômico etc, etc. Todas essas formas de sofrimento giram em torno de sermos confrontadas com a impermanência e mudança.

O Centro da Roda: Paixão, agressão e ignorância.

Em gravuras tradicionais, no centro da Roda estão três animais: o galo, a cobra e o porco. Cada um segurando a cauda do animal seguinte e formando assim um círculo. O galo, a cobra e o porco representam paixão, agressão e ignorância. A metáfora desses animais basica-mente representa aquilo que categorizamos/julgamos e como respondemos aos outros e ao meio. Essas reações são chamadas de ‘raízes do obscurecimento’ = falta de clareza, porque elas obscurecem nossa natureza, a natureza dos seres e o que estamos fazendo. Essa falta de clareza não é estática, ela é dinâmica. Por exemplo a paixão é o desejo de incluir, a agressão é o desejo de excluir e a ignorância que é quando você ignora, não se importa ou não nota. É possível categorizar cada pensamento que temos, cada atitude, como a combinação de duas ou mais dessas três reações principais, aqui representadas. Por exemplo, se você se apaixona por alguém, você quer incluir esta pessoa em todas suas as atividades (apego), porém, talvez queira se livrar de todos as coisas que te incomodam nesta pessoa (agressão=rejeição) e se recusa a perceber certas características que mais tarde se transformarão em problemas para a relação (ignorância). As reações momentâneas tendem a solidificar-se com o tempo. Por exemplo, uma amiga ou colega criticou você em algum aspecto do seu trabalho, você se ofendeu e passou a ver esta pessoa como inimiga, uma vez que consideramos alguém como inimiga, tentamos evitar ou diminuir esta pessoa, muitas vezes até falando mal da mesma ou apontando seus defeitos sempre que surgir uma oportunidade. Nossa compulsão em reagir ou a nossa inter-ação com o mundo é onde criamos os resíduos kármicos. Este karma nasce de desejos persistentes, agressão persistente, situações ou emoções reprimidas ou ignoradas e ’empurradas para debaixo do tapete’ para depois surgir em momentos oportunos (ou inoportunos). A transforma-ação da paixão nos aproxima dos outros, a transforma-ação da agressão nos permite eliminar o que não é saudável e a transforma-ação da ignorância nos torna mais espaçosas e amáveis.

Ações Positivas e Negativas

O próximo círculo da roda retrata as ações positivas e negativas. No diagrama tradicional, existe uma fila de pessoas sendo conduzidas em direção à parte superior da roda por um monge e simboliza ações positivas e outra linha/fila de pessoas sendo amarradas e arrastadas em direção à parte inferior da roda por um demônio simboliza ações negativas. Ações positivas baseiam-se em compreensão/discernimento, simpatia, clareza e compaixão, beneficiando assim a si mesma e ao próximo. Ações negativas por outro lado, nascem do apego, da agressão e ignorância, causando mal-estar a si mesma e aos outros. Compreender o impacto de nossa atitude requer bom senso ou senso comum.

Os Seis Reinos

O anel seguinte da Roda retrata os Seis Reinos, dos Deuses, dos Asuras (ou semi-deuses invejosos), humano, animal, fantasmas famintos e inferno. Em geral, esses reinos são caracterizados pela nossa relação com a dor e o prazer. Quando experimentamos uma sensação de prazer por um tempo prolongado, estamos vivenciando o Reino dos Deuses, o pináculo da vida na Samsara. No Reino dos Asuras, o prazer não é constante e existe muita insegurança, competição e inveja. No Reino Humano temos paixão, anseio, cobiça e curiosidade e flutuamos entre prazer e dor. No Reino Animal, os mesmos tentam com teimosia criar padrões familiares e circunstâncias agradáveis, evitando a todo custo o sofrimento. No Reino dos Fantasmas Famintos, elxs procuram por circunstâncias agradáveis, porém na maioria das vezes experimentam ânsia/desejo de mais e insatisfação.

A Cadeia das Causas e Efeitos

O anel externo da Roda é chamado de Nidanas em Sanscrito, ele é a cadeia de tudo aquilo que se origina inter-dependente-mente, ou o surgimento dependente. Esse anel descreve como nos movemos da ignorância para o nascimento, envelhecimento, doença e morte repetidas vezes. Esta é uma outra maneira de descrever como o karma se desenvolve através de causas ou motivos particulares criando determinados efeitos e como cada um desses efeitos tornam-se o vínculo ou elo para o próximo ciclo.

O Buddha em Cada Reino

Na Roda Original, existe um Buddha em cada Reino ensinando os seres que ali habitam, falando uma linguagem distinta de acordo com o entendimento destes seres e com base no que se experimenta naquele determinado Reino. Esses Buddhas representam a possibilidade de desenvolvermos insight, sabedoria, e compaixão independente das circunstâncias. Por exemplo, o Buddha que habita o Reino dos Asuras carrega uma espada, ela representa sabedoria, quando nos encontramos num mundo competitivo e agressivo, nos sentimos afiadas e poderosas ao enfrentar pessoas e situações, neste momento, com sabedoria e usando de tais ferramentas, podemos nos mover além do egoísmo e desenvolver qualidades que possam beneficiar as pessoas de modo geral. Já no Reino dos Fantasmas Famintos, o Buddha carrega um frasco com sustento, porque os seres que ali se encontram estão presos num ciclo baseado em pobreza, baixa estima, logo a ideia de serem generosos nem que seja por um momento pode ser libertadora. No Reino Humano, existe abertura suficiente que nos permite aceitar ideias novas, desenvolver insight e mudar velhos padrões. Neste Reino, Buddha aparece muitas vezes como um mendigo segurando uma cesta, recebendo os ensinos no coração renunciando a vida material para alcançar a realização. Existe um Buddha em pé do lado de fora da Roda representando a transcedência de todos os Reinos.

A função dos Buddhas na Roda é apontar a possibilidade de transformação de nossas experiências dentro de cada Reino. Podemos ver nosso karma e nossa vida nos Reinos como prisões ou como oportunidades para se libertar, depende somente de nossa decisão.

A raíz/causa de nossas experiências em cada um dos Reinos nada mais é que nosso próprio estado mental. Cada Reino possui uma chave para compreender e nos mover além dos obstáculos.

Trechos do Livro: Awekening from the Daydream by David Nichtern