August 5, 2020

A Prática de Shamata

By YvY

(Técnica Budista de Meditação)
Nota : Todas as palavras que envolvem a mente, como correta-mente etc, estão separadas por hífen, mesmo gramatica-mente “incorretas”, elas salientam as atividades mentais. Note-se que esse detalhe é resultado de uma escolha pessoal.

Talvez para muitas, ninguém nos falou ou percebemos que era hora de olharmos para dentro de nós mesmas. E devido a este e outros fatores demoramos para desenvolver uma compreensão básica de quem real-mente somos e certa-mente não estamos sozinhas nesta busca.

Um exemplo que pode ser usado aqui é a preguiça, ela passa a ser uma das formas que encontramos para permitir que a culpa nos afunde, nos desorientando e causando sofrimento.
“Estamos inseridas em uma cultura que nos mantém adormecidas. Ninguém está meditando. Por que eu seria deferente? Logo penso … vou esperar mais um pouco, ou começar quando tiver tempo.”

Distraídas usamos este tempo para nos entreter, tal qual crianças movendo-se de um brinquedo para o outro, como se fôssemos possuidoras de tempo ou de qualquer outra coisa que nos disperse e nos mova away from ourselves.

Se continuarmos a agir desta forma, nunca vamos meditar. Temos que aceitar a responsabilidade pelo nosso estado mental; não funciona mais continuar culpando os outros pela nossa confusão ou esperar que alguém afirme ou concorde com nosso estado de ser. Temos que olhar para nós mesmas como sendo a Fonte de nossa própria confusão – e da nossa própria iluminação. Meditar é tornar-se amiga de quem nos dá sempre o melhor conselho sobre como viver nossas vidas, como manusear (e não controlar) nossas vidas e nos perceber total-mente acordadas. Se não fizermos um esforço mental, vamos naufragar. É preciso esforço para livrar-se da preguica que toma conta de nossas vidas. Precisa esforço para aplicar as técnicas correta-mente.

Embora Shamata signifique habitar em paz, é preciso esforço para estabilizar e pacificar nossa mente selvagem. É o reconhecimento de que não dá mais para viver em conflito. Este conflito já estabelecido externa-mente devido aos anos de prática, é reflexo de uma mente selvagem, descontrolada, que busca fora, nas relações e nas coisas, prazer e conforto, e como resultado vem o sofrimento. Esta mente é como um pêndulo agitado, buscando sempre prazer e tentando evitar o sofrimento, nunca está em paz consigo mesma.

A decisão de apaziguar, ou domar essa mente comparada com cavalos selvagem, só vem quando cansadas de ser atiradas de um lado para o outro buscamos compreender a natureza da mente, onde tudo se origina.

E a natureza desta mente é a mesma em todos os Seres. É a natureza primordial, chamada de Buddha Nature e ela é intrínseca em todos. Somos iguais !! O potencial é o mesmo em cada um. O que nos separa e causa conflito são as ideias de quem somos, o self = personalidade/caráter que construímos ao longo dos anos, baseados na cultura, língua, cor, nacionalidade etc.

Este self, o ego/eu mascarado, é um dos agentes causadores de sofrimento. Acreditamos que status social, nacionalismo, poder, controle, bens materiais e as relações com os outros, nos trarão felicidade, e buscamos a permanência disso tudo, queremos que dure para sempre e nos apegamos, agarrados à essas ideias, usamos o tempo precioso para manipular, consumindo energia em prol do que é meu, e do eu.

A prática de SHAMATA nos mostra como nossa mente trabalha. E o primeiro passo, antes de sentar para meditar, é observar a mente. Observar no dia a dia quais são os pensamentos que chegam, e quando chegam, quanto tempo/energia dedicamos a eles. Observar se são benéficos ou não e para isso é preciso mudar o foco, nem que seja por um segundo. Mudar o foco para a respiração e perceber como respiramos. Se a respiração é ofegante ou incompleta, o pensamento é desarmônico. Se a respiração é completa e relaxada o pensamento está circulando dentro do bem-estar.

A mente nos tira do agora, a fantasia, os desejos disso ou daquilo assim como a introspeção, o ir muito a fundo em tudo, representam nada mais nada menos que uma mente dispersa, fora de foco. O foco ? A respiração, porque ela acontece aqui e agora e sem ela não há vida, nem pensamento. Quando começamos a prática, percebemos que os pensamentos e as emoções são algo sólido, isso demostra a fraqueza da nossa mente. Pensamentos e emoções nos dominam e são esmagadores. Então, com a prática, começamos a perceber que eles são apenas nevoeiro emergindo da água.

Nós vemos que os pensamentos tem poder sobre nós porque acreditamos neles, tanto, que baseamos nossas vidas neles. Como vestir, o que comer, onde morar, e tudo o mais na vida é produto deste pensamento. O que estávamos pensando quando compramos isso ? Ou quando agimos deste ou daquele jeito ? Ou quando falamos isso ou aquilo ? Estávamos alerta sobre os pensamentos confusos sendo derramados como cascatas de forma a ficarmos cegas para a realidade? Passamos a perceber como nossas crenças e pensamentos solidificados criaram barreiras e conceitos sobre quem eu sou. Com a prática percebemos que a base do nosso Ser é algo mais profundo e mais aberto do que as nossas fantasias, emoções e discursos.

Texto baseado nos ensinos de Pema Chodron do site lionsroar